terça, 24 de novembro de 2020

COLUNA

Otimismo é importante, mas encare a realidade

Data: Domingo, 01/11/2020 10:37

As pessoas podem prever o futuro somente quando ele coincide com seus próprios desejos, e os fatos mais grosseiramente óbvios podem ser ignorados quando não são bem vindos ” - George Orwell. 

Sim, a incapacidade de prever o que contraria seus anseios e ambições certamente já nublou seu raciocínio lógico. 

O termo inglês wishful thinking, que é de difícil tradução, descreve a distorção do entendimento da realidade pelo o que a pessoa quer que seja aconteça. É acreditar em algo pelo desejo (wish) que isso seja verdade, é um viés de desejabilidade.

Os exemplos atuais da pandemia de Covid-19 contextualizam o fenômeno.

Incidência de luz solar, vacina BCG, hidroxicloroquina e outras peculiaridades mato-grossenses eram argumentos para refutar a possibilidade do estado ser atingido pela doença. 

Não fomos só alcançados, como ainda estamos longe de superar a situação. 

Acreditar que uma doença que atingiu de países europeus, ao Irã e metrópoles americanas verdadeiramente não atingiria a cidade em que você mora é uma crença totalmente desvalida de uma análise fria dos fatos.

Como um exercício de engenharia reversa, o wishful thinking começa pelo desejo inicial: Não quero que eu e os que amo sejam atingidos pela doença. Quase de forma instantânea, uma lente enviesada passa a selecionar, ponto a ponto, o que confirma esse futuro idealizado. 

A projeção do futuro é elevada ao patamar de evento consumado e partir disso o que confirme o desfecho se torna argumento, o que contraria é sumariamente refutado.

Quer observar isso ao vivo e a cores? Pergunte aos seus conhecidos envolvidos em campanhas eleitorais sobre as chances reais de eleição do seu candidato. Se prepare para testemunhar uma verdadeira alquimia de indícios e argumentos que dão a vitória como certa.

Ser otimista quanto ao futuro é necessário, nos motiva a sair de casa, mas no wishful thinking o desejo infla o otimismo. Ele distorce a cognição ao ponto de alguém investir tempo, dinheiro e energia em busca de um resultado altamente improvável e algumas vezes impossível. 

Aplicações em esquemas de pirâmide, a crença na vacina contra o coronavírus antes do Natal, a certeza de uma virada de última hora na corrida eleitoral são frutos dessa cegueira parcial que conforta, justifica ações e ultimamente funciona como defesa à dureza da realidade, sempre indiferente à sentimentos. 

No contexto de disponibilidade infinita de notícias que oferecem versões alternativas de dados concretos, é fácil selecionar as que reforcem o seu viés.

Sem enxergar defeitos, sem perceber falhas nas nossas opiniões não conseguimos fazer um ajuste de rota. Não adotamos decisões enérgicas e rápidas baseadas em ciência, não concretizamos reformas políticas e erramos em decisões da vida pessoal por se apegar a versões editadas dos fatos.

Uma população que perde a visão crítica quanto a suas capacidades, que não aceita dados contraditórios e não pondera com ceticismo, se torna presa fácil para marketeiros, engenheiros sociais e se encanta com barcas furadas como a construção ar condicionado no centro de Cuiabá ou de um veículo leve sobre trilhos.

Fique atento, para evitar uma distopia orwelliana o otimismo é importante, mas encare a realidade.

Autor: Manoel Vicente de Barros
Sobre o autor:
Manoel Vicente de Barros é médico, graduado pela UFMT e saiu da terra natal para fazer residência em psiquiatria em Barbacena (MG), se aperfeiçoou no tratamento da depressão e ansiedade com Estimulação Magnética Transcraniana em Toronto no Canadá e retornou a Cuiabá para atuar com psiquiatria humanizada. Escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. Instagram: @dr.manoelvicente E-mail: dr.manoelvicente@gmail.com