sexta, 03 de julho de 2020

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Data: Segunda-feira, 29 de agosto de 2011     Fonte: João Guató

Na divisa de MT e RO, Cinta Largas querem fim dos garimpos de diamantes

Na último dia 19, em Porto Velho, Capital do Estado de Rondônia, o povo Indígena Cinta Larga rompeu o silêncio e pressionou o Ministério Público Federal e a bancada de deputados federais de Rondônia em torno da exploração de diamante e invasão de suas terras nos estados de Rondônia e Mato Grosso.  As lideranças apresentaram um vídeo na reunião  mostrando que o garimpo de Lajes em seu território foi paralisado por determinação da “Operação Laje”. O que vem ocorrendo desde ano passado com fiscalização dos próprios Cinta Larga, que tem inibido até a exploração de madeira.

 

De cara pintada, símbolo de insatisfação por parte dos povos indígenas, as lideranças Cinta Larga romperam o silêncio afirmando que o interesse dos indígenas é fazer a vontade do Governo para ajudar a resolver os conflitos de forma pacifica, mas para isso o Governo Federal "precisa parar de mentir". Isto porque assume compromissos nas reuniões e depois não cumprem.

 

De forma civilizada e com alto nível de diálogo, os Cinta Larga denunciam a invasão de terras para exploração de diamante. Fato que vem ocorrendo ha décadas desde o “Massacre do Paralelo 11”. Os Cinta Larga encontra-se numa área de aproximadamente 2,7 milhões de hectares que envolvem terras nos dois estados. Com os constantes ataques das populações não indígenas em seu território e devido a inércia do governo brasileiro, eles estão reduzidos a uma população estimada em 2.100 indígenas.

 

Revoltados com a falta de resultado das reuniões com o Governo, o coordenador da Associação Cinta Larga, Marcelo Cinta Larga, se disse insatisfeito com as inúmeras reuniões realizadas que não traz resultados concretos para o seu povo. “Queremos resolver os conflitos que temos com os garimpeiros de forma pacifica, mas promessas não são cumpridas”, disse Marcelo Cinta Larga alegando “que não é suficiente somente paralisar os garimpos. É preciso ter alternativas”.

 

O procurador federal Reginaldo Trindade, responsável pela defesa do povo indígena, por dever de oficio assegurado na Constituição de 1988, disse que o Ministério Público tem feito a sua parte. Ele disse que de 2004 até o momento foram realizadas 2.638 ações em defesa dos Cinta Larga, sendo que deste total foram realizadas 94 reuniões e 21 medidas judiciais, mas mesmo assim ele reconhece que houve pouco avanço nas soluções dos problemas.

 

Por outro lado, o líder Cinta larga, João Bravo, que é bravo até no nome, disse que outras lideranças não estavam presentes no encontro porque os indígenas enfrentam dificuldade de locomoção para participar das reuniões quando são convocados. Ele argumenta que falta condições por parte da Fundação Nacional do Índio (Funai) para transportá-los às reuniões . Por essa razão, ele diz que faltou na reunião em Rondônia, a presença dos Cinta Larga do estado de Mato Grosso.

 

Os conflitos entre não índios e o povo Cinta Larga em busca dos recursos naturais é histórico. Segundo apurou a nossa reportagem, em território Cinta larga, há registro de tragédias envolvendo índios desde a década de 60. Em especial para a Sina apuramos de forma cronológica os conflitos que já ocorreram na área:

 

Em 1963,  uma aldeia cinta larga, na beira do Rio Aripuanã, é atacada por seringalistas da Companhia Andrade e Junqueira. É o chamado Massacre do Paralelo 11. Por conta disso, o Brasil foi denunciado pela primeira vez internacionalmente por violação aos direitos indígenas. Em 69, a recém-criada Fundação Nacional do Índio faz contato com os cintas largas. Trinta anos depois, foi aescoberta a jazida de diamantes na Terra Indígena (TI) Roosevelt. No ano 2000, garimpeiros invadiram as terras dos cintas largas em busca de diamantes. Entr 2001 e 2002  Índios são assassinados: Carlito Cinta Larga (19/12/2001) e César Cinta Larga (abril de 2002). Ainda em 2002  começa a desintrusão no garimpo e no ano seguinte quatro caciques cintas largas  -Nacoça Pio, João Cinta Larga, Alzac Tataré e Amaral - são presos pela Polícia Federal.

 

Com anos tensos, em 2004 um grupo de  29 garimpeiros são encontrados mortos na TI Roosevelt (RO). Eles eram  garimpeiros na reserva Roosevelt. O fato acabou provocando reações no Governo Federal, Senado, Câmara, Organizações Não Governamentais (Ongs) e indigenistas.

 

Pio Cinta Larga disse na época que nem sempre pode controlar as ações dos índios de sua tribo.  Integrantes de outras aldeias se uniram aos Cinta Larga para realizar o ataque. Isto porque a Reserva Roosevelt era constantemente invadida pelos garimpeiros em busca de diamante. Na época o deputado Júnior Betão (PPS-AC), então presidente da Comissão da Amazônia, Integração Nacional e de Desenvolvimento Regional, colheu assinaturas para a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as mortes.

 

Registros históricos demonstram que a Polícia Federal entrou no caso e conseguiu retirar os garimpeiros da terra dos índios cinta largas, e colocou agentes nas estradas que dava acesso à reserva Roosevelt para evitar a exploração de diamantes no local.